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terça-feira, 23 de junho de 2009

LAVOURA ARCAICA

O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seus movimentos: será consumido por suas águas; ai daquele, dizia o pai, que abre a camisa para um confronto: há de sucumbir em suas chamas, que toda mudança, antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais que insinuada; [raduan nassar]


o tempo é muito maior do que eu. eu procuro lembrar.
ainda assim, muitas vezes eu quase me afogo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

sossega, coração!


sossega, coração! não se desesperes!
talvez um dia, para além dos dias,
encontres o que queres porque o queres.
[fernando pessoa]

para lembrar em momentos em que a paciência é muito pouca

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O CROCODILO

Antes eu havia passado por aquelas cidades dando concertos de piano; as horas de felicidade foram escassas, pois eu vivia na angústia de reunir pessoas que quisessem aprovar a realidade de um concerto; tinha de coordená-las, influenciá-las e tratar de encontrar algum homem que fosse ativo. Quase sempre isso era lutar com bêbados lentos e distraídos: quando conseguia trazer um, o outro me escapava. Além disso, eu tinha de estudar e escrever artigos nos jornais. Fazia algum tempo que eu já não tinha essa preocupação: consegui entrar numa firma de meia para mulheres. Havia pensado que as meias eram mais necessárias que os concertos, e que seria mais fácil colocá-las. Um amigo meu disse ao gerente que eu tinha muitas relações femininas, porque era concertista e percorrera muitas cidades: logo, poderia aproveitar a influência dos concertos para vender meias. O gerente torceu o nariz; mas aceitou, não só pela influência do meu amigo, mas também porque eu havia tirado o segundo prêmio no texto de propaganda para essas meias. Sua marca era Ilusão. E minha frase tinha sido: "Quem não acaricia, hoje, uma meia Ilusão?".
Felisberto Hernández

O crocodilo é um conto engraçadíssimo do livro "O cavalo perdido e outras histórias", do uruguaio Felisberto Hernandez. O concertista se torna vendedor de meias Ilusão por não conseguir mais patrocínio dos amigos para os concertos e se descobre um péssimo vendedor. Aí, ele chora. O choro vira uma estratégia, a sua estratégia. Com muitas lágrimas, ele aumenta a venda das meias Ilusão e voltar a tocar piano. Esse conto me fez rir do começo ao fim depois de um dia estressante e esse livro é incrível, os nove contos são fantásticos, pelas histórias, pela linguagem. Não sou alguém que já leu muita literatura latino-americana mas eu já li e também de outros lugares e a linguagem do Felisberto Hernández não lembra a de qualquer outro escritor que eu tenha lido. É sempre ótimo encontrar um escritor assim, um livro assim, então leiam esse livro algum dia. Eu recomendo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

DESENHOS

III.

Qualquer barco é maior que a casa dos pescadores.
Os meninos balançam os pés na água.
Grande é o céu, grande é o mar.
Não se precisa de casa nenhuma neste mundo:
entre o céu e o mar se pode nascer, viver, morrer.
E o homem é um pequeno instante.

Cecília Meireles.

eu não posso dizer que leio muito Cecília Meireles eu não leio e eu não gosto de muitos poemas dela mas eu tenho livros dela e toda vez que eu pego esses livros eu encontro um poema ótimo] talvez seja o tipo de poeta que se aprende a gostar, com paciência, com o tempo, eu gosto disso.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

ESBOÇO


Teus lábios inquietos
pelo meu corpo acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
[Gilka Machado]

o post de hoje é um poema do livro sublimação (1965), da gilka machado. eu descobri a obra dela lendo a correspondência do manuel bandeira com o mário de andrade. eu gostei muito. anos atrás, eu queria a obra completa dela e eu fiz um tour pelos sebos de são paulo. eu não consegui a obra completa ou qualquer livro dela, mas eu li vários poemas na internet. eu li também que ela sofreu um pouco de preconceito por escrever poemas éroticos. são poemas delicados, nem um pouco vulgares. esboço é um dos poemas eróticos dela, mas ela não escreveu só poemas eróticos. confira aqui.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

AS PÉROLAS

O mercador dizia-me que as pérolas deste colar levaram dez anos a ser reunidas. Pequenas pérolas - de que mares? de que conchas? - menores que lágrimas, apenas maiores que grãos de areia, transpiração das flores. Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira não perturbava a beleza das pérolas. E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos, escuras e magras, sob longos olhares pacientes, aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado para uma criatura de muito longe, desconhecida e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui. [Cecília Meireles]


um pouco de beleza. para distrair.

domingo, 16 de novembro de 2008

horário de trabalho


Depois das treze poderei sofrer:
antes, não.
Tenho os papéis, tenho os telefonemas,
tenho as obrigações, à hora certa.

Depois irei almoçar vagamente
para sobreviver,
para agüentar o sofrimento.

Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos,
disporei o material da dor
com a ordem necessária

para prestar atenção a cada elemento.
acomodarei no coração meus antigos punhais,
distribuirei minhas cotas de lágrimas.

Terminado esse compromisso,
voltarei ao trabalho habitual.
[Cecília Meireles]

___
eu aprendi tarde que sentir dor em qualquer hora sem qualquer compromisso de esgotar essa dor e de distribuir todas as cotas de lágrimas é querer continuar com os punhais e com as lágrimas

domingo, 9 de novembro de 2008

agora

do lugar onde estou já fui embora [manoel de barros] e os círculos se repetem menos e menos desde que eu comecei a sentir ao contrário

sábado, 30 de agosto de 2008

O CAVALO PERDIDO

Celina nem sempre entra na lembrança como entrava pela porta de sua sala: às vezes entra já estando sentada ao lado do piano, ou no momento de acender o abajur. Eu mesmo, com meus olhos de agora, não a recordo: recordo os olhos que naquele tempo a olhavam; aqueles olhos transmitem a estes suas imagens; e também transmitem o sentimento em que as imagens se movem. Nesse sentimento há uma ternura original. Os olhos do menino estão assombrados, mas não a olham fixamente. Celina tão logo esboça um movimento, já termina de fazê-lo; mas esses movimentos não roçam nenhum ar em nenhum espaço: são movimentos de olhos que recordam. [felizberto hernández]

as memórias são brincadeiras de olhos que não esquecem] que distorcem] quase medo de esquecer e de não saber o que pensar

domingo, 24 de agosto de 2008

ANTIODE


Poesia, te escrevia
flor! conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer,

gerando cogumelos
( raros, frágeis cogu-
melos ) no úmido
calor de nossa boca.

Delicado, escrevia:
Flor! ( Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie

extinta de flor, flor
não de todo flor,
mas flor, bolha
aberta no maduro ).

Delicado, evitava
o estrume do poema
seu caule, seu ovário
suas destilações;

esperava as puras
transparentes florações
nascidas do ar, no ar,
como as brisas.
[joão cabral de melo neto]


eu não quero mais saber de fungos na minha ou em qualquer boca
e de palavras-fezes e de palavras-estrume e de palavras-veneno ]
tem palavras que eu já não consigo sentir o cheiro ou o gosto:

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O FUTURO É AGORA

O ácido sulfúrico vai eporar em temperatura ambiente daqui a 500 anos. Mas meu sangue já chegou à seringa. E antes que o desaparecimento das estrelas consuma a última utopia, dentro do meu peito, o coração pulsa. Quase não o ouço. Concentro-me para que ele não pare de bater. Qualquer distração pode ser fatal. Há tempos, mandei-me uma mensagem ao futuro. Hoje, escrevo mensagens eletrônicas em prosa límpida e vou lançando, uma a uma, para mim mesmo, como quem lança perto da janela do prédio as folhas de um velho caderno. O retorno é provável, mas não é garantido. Muita coisa desaparece no sopro da memória, na caligrafia ilegível, entre os impulsos elétricos e nervosos que me mantêm. [marcos siscar]


eu gosto de pensar a memória como o verso em branco de uma folha amarelada de tão antiga com o reverso rasgado de palavras quase nanquim que eu tenho a possibilidade de escrever sobre e de reinventar apesar de manchas de riscos de tinta de rasgos no papel

domingo, 6 de julho de 2008

APONTADOR

Nunca acertava o momento de largar o apontador. Apontava duas voltas e parava, via que a ponta do lápis estava boa, mas ainda não era ideal e continuava. Mais duas voltas, as tiras da madeira se amontoando na classe e pensava que poderia avançar mais um pouquinho. No meio da última volta, quando suspirava de satisfação, o grafite quebrava. Não absorvia a lição, e recomeçava. O capricho me impelia: arredondar a cabeça, afiar a pequena lança de meus deveres escolares. Não encontrava a hora de cessar, confiava que acertaria na próxima tentativa e fracassava. A ponta perfeita terminava presa no apontador de metal. O lápis ia diminuindo. E recomeçava até admitir que minha letra não deslizaria como desejava, ficaria borrada e que somente o uso abrandaria as lascas. [carpinejar]
jogar fora o apontador de metal e parar de apontar o que quem quer que seja antes que só fique a madeira e depois menos que a madeira

quarta-feira, 2 de julho de 2008

CIRCUITO FECHADO

Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, provas de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista, quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro. [ricardo ramos]


quando a solidão fica acompanhada de papéis, de canetas, de livros, de telefones, de maços de cigarros e caixas de fósforos, de rotinas.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

OS DESLIMITES DA PALAVRA

Este ermo não tem nem cachorro de noite.
É tudo tão repleto de nadeiras.
Só escuto as paisagens há mil anos.
Chegam aromas de amanhã em mim.
Só penso coisas com efeitos de antes.
Nas minhas memórias enterradas
Vão achar muitas conchas ressoando...
Seria o areal de um mar extinto
Este lugar onde se encostam cágados?
Deste lado de mim parou o limo
E de outro lado uma andorinha benta.
Eu sou beato nesse passarinho.
[manoel de barros]

nos dias que a vida tem pouca literatura é quando eu percebo que o dia-a-dia não se confunde com literatura e que eu tenho o costume de inventar de enxergar literatura no dia-a-dia. em dias assim eu não sei mais o que tem importância e qualquer mágoa qualquer raiva qualquer estresse são tão pequenos que eu só consigo pensar em exagero e em bobagem. em dias assim eu paro de pensar as coisas com efeitos de antes pra conseguir perceber os aromas de amanhã.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

LAVOURA ARCAICA

"rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é" [raduan nassar]

para não comprar ilusões; antes de sentir, eu preciso de mais espera
eu não quero encontrar o que quem não é por expectativa por pressa

domingo, 1 de junho de 2008

NOTAS DO SUBTERRÂNEO

Entre as lembranças que cada um de nós traz consigo, algumas há que só contamos aos amigos. Outras, nem aos amigos revelaríamos, mas apenas a nós mesmos e ainda assim em segredo. Finalmente, há outras coisas que o homem tem medo de contar até a si mesmo, e cada homem honesto conserva bom número dessas lembranças guardadas em sua mente. [dostoiévski]

eu preciso de outros olhares para reinventar as minhas memórias

terça-feira, 27 de maio de 2008

ESPERANÇA

"nesse tempo emocional que o tempo acumula todos os dias nem o mais breve suspiro se perde, se ele foi dedicado ao aperfeiçoamento da vida. muitas coisas se desprendem e perdem - ou parecem desprendidas ou perdidas - ilimitado tempo: mas outras vêm, como heranças intactas, de geração em geração, caminhando conosco, vivas para sempre, vivas e atuantes, e não lhes podemos escapar"
[cecília meireles]


eu não quero saber de perdas eu não sei de perdas eu quero saber de outros verbos com outras perspectivas com outras presenças

terça-feira, 8 de abril de 2008

PATACOADA]


A pata empata a pata
porque cada pata
tem um par de patas
e um par de patas
um par de pares de patas.
Agora, se se engata
pata a pata
cada pata
de um par de pares de patas,
a coisa nunca mais desata
e fica mais chata
do que pata de pata.
josé paulo paes

literatura não é só choramingos. 1 poema infantil, dos mais legais.
2 patas se empatam por cada pata ter 2 patas, 1 par de patas. 1 pata tem 1 par de patas. 2 pares de patas, 1 par de pares de patas. juntas, cada pata, 2 patas, 4 patas. patacoada joga com a repetição de palavras e com a aritmética de 1 jeito que é possível confundir as patas das patas com as patas e entender que a idéia de contar as patas das patas é chata, quando as patas das patas são chatas.
1 poema inteligente, divertido, quase 1 música. ao mesmo tempo.

segunda-feira, 24 de março de 2008

PEDRA DO SONO], O AVENTUREIRO

Às primeiras palavras que ela gritou
fomos precipitados na sombra.
A sombra era doce e tinha suas vantagens:
esportes, cinema e os sinais do tráfego sempre abertos.
As palavras seguintes não foram palavras de dicio-
[nário.
Nos tiraram de lá e nos deixaram
as emoções irremediavelmente desertas.
A essa altura ela não mais podia ser encontrada
dentro de nenhum dos espelhos da casa.
Ninguém ousava morrer. Todos corremos na praia
[nua.
joão cabral de melo neto

as palavras que eu não reconheço eu não sinto o que elas começam:
a sombra ou
o gosto e as vantagens da sombra.

domingo, 23 de março de 2008

PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO

VIII

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota,
a terra completa
cai, fruto!

Enquanto na ordem
de um outro pomar
destila o tempo
palavras maduras).

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

o tempo não mais
destila: evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.
joão cabral de melo neto

eu gostava de pensar as palavras grávidas de promessas
de possibilidades