sábado, 1 de março de 2008

OS DESLIMITES DA PALAVRA

3.3
Este ermo não tem nem cachorro de noite.
É tudo tão repleto de nadeiras.
Só escuto as paisagens há mil anos.
Chegam aromas de amanhã em mim.
Só penso em coisas com efeitos de antes.
Nas minhas memórias enterradas
Vão achar muitas conchas ressoando...
Seria o areal de um mar extinto
Este lugar onde se encostam cágados?
Deste lado de mim parou o limo
E de outro lado uma andorinha benta.
Eu sou beato nesse passarinho.
[manoel de barros]


quero aromas de amanhã com efeitos de agora.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Seção Infantil

Serto dia Chico pensou: hoje é dia de São Pedro eu vou fazer uma festa junina. Vou convidar a Mônica, a Rosinha, a Margarida, o Cebolinha e o Cascão, para a minha festa. Vou pedir para que meu vizinho, toque sanfona na festa, vou perguntar para a minha [mãe] se ela faz as comidas.
_ Mãe poso fazer uma festa junina?
_ Sim claro! Chico Bento
_ Mãe você faz os doces?
_ Sim!
A festa está toda arrumada os convidados já chegaram.
_ Pessoal, vamos dançar, cada um escolhe o seu par.
Todos escolheram mas Rosinha ficou sem par, e Chico perguntou:
_ Vamos dançar Rosinha?
A Rosinha aceitou, eles com sua dança chamaram a atenção de todo mundo. As pessoas fizeram um circolo batendo palmas. Os contentes dançarem felizes. Fim.
[de um(a) aluno(a) da 4ª série do ensino fundamental]

esse texto é uma graça, de tão direto, do jeito que uma criança é, mesmo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

APONTAMENTOS DE UM MUNDO PLANO

[OU O PROBLEMA É MEU]
.
t: pode falar que às vezes sou bem inteligente
paula: pena que você não sai da bolha né
t: to saindo, to saindo
paula: uhum [sente a desconfiança]
t: preferi acreditar que foi um "uhum" sincero
paula: não foi. e ai?
t: problema seu
.
eu me divirto com pouco, eim. mais aqui.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

PERSPECTIVAS

Estamos todos habituados a considerar-nos como primordialmente realidades mentais, e aos outros como directamente realidades físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos dos outros; vagamente consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os outros têm sobretudo alma, como nós para nós. Perco-me, por isso, às vezes, numa imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é a minha voz, que tipo de figura deixo escrita na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. (...)
[bernardo soares]
o post de hoje é parte de um trecho do livro do desassossego, do bernardo soares, um semi-heterônimo do pessoa. desde quando eu li a primeira vez, já gostei desse trecho, por ter brincado com o jeito que eu vejo o outro e por ter me lembrado de que o outro, como eu, é uma realidade mental e não apenas física, desprovida de alma, ou seja, da capacidade de pensar e de sentir. []

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

PASSAPORTE PARA

[steffania paola] OUTROS OLHARES.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

DO COFRE,

[gil vicente] SE HOUVER CORAÇÃO.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

COMO É

e sempre a mesma coisa velha as mesmas velhas coisas possível e impossível ou eu minha culpa que não consigo encontrar mais nada quando a ofegação pára ouvir mais nada as mesmas velhas coisas quatro ou cinco alguns enfeites a vida em cima pequenas cenas coisas ditas para mim sobre mim para quem mais sobre quem mais cerrar os olhos tentar ver outro para quem sobre quem para quem sobre mim sobre quem para mim ou mesmo um terceiro cerrar os olhos tentar ver um terceiro misturar tudo isso [beckett] e sempre o mesmo texto os mesmos textos possível e impossível ou eu minha culpa que não consigo encontrar mais nada quando a ofegação pára pensar mais nada os mesmos textos a vida em cima cenas coisas ditas por mim para mim cerrar os olhos tentar ver outro para quem sobre quem para quem sobre mim sobre quem para mim gastar os textos até que apareçam outros textos possível e impossível ainda []